sábado, 23 de maio de 2026

AVANTE BOLÍVIA INSURGENTE * Partido Comunista dos Trabalhadores Brasileiros/PCTB

AVANTE BOLÍVIA INSURGENTE
O levante popular na Bolívia: um potente e inquebrantável exemplo aos trabalhadores latino-americanos


A guerra de classes se radicaliza na Bolívia. O país andino vive claramente uma situação que podemos considerar pré-revolucionária, marcada por uma greve geral radical que já dura mais de vinte dias, mobilização permanente das massas trabalhadoras, sobretudo mineiros, professores, camponeses e povos indígenas.

O proletariado e as massas populares bolivianas dirigidas pela Central Obrera Boliviana (COB), têm como norte central de sua potente mobilização, a renúncia do presidente entreguista Rodrigo Paz, eleito há seis meses.

Paz, apesar de sua demagogia no período eleitoral, prometendo um “capitalismo para todos", tem como eixo de seu governo vassalo, a entrega aos grupos estrangeiros dos recursos naturais bolivianos como o lítio; propõe uma nova lei fundiária que na prática expropria dos campesinos indígenas suas terras, fator que certamente provocaria uma concentração latifundiária sem limites e desestruturaria por completo o país, que possui uma enorme massa indígena de pequenos camponeses que foram beneficiados pela reforma agrária de 1952.

Também, o governo direitista de Paz implementa um ajuste estrutural neoliberal, que tem agravado a crise econômica e social que mergulha o país, recrudescendo a pobreza das massas, a dependência, o subdesenvolvimento e a total instabilidade política que toma conta da Bolívia já há quase dez anos, desde o contexto da campanha golpista que derrubou Evo Morales em 2019.

A Bolívia têm sido palco nas últimas décadas, de uma admirável capacidade de organização e mobilização de sua classe operária e das massas populares, sobretudo os povos indígenas. Na verdade, o povo trabalhador boliviano possui uma honrosa tradição revolucionária e de lutas, basta lembrarmos da revolução de 1952, onde, segundo o grande pensador marxista boliviano Renê Zavaleta, houve no país uma situação clara de dualidade de poderes, muito semelhante ao que aconteceu na revolução russa de 1917 (Renê Zavaleta, “El Poder Dual”).

Já no período mais recente das últimas décadas, as massas bolivianas protagonizaram verdadeiras e heroicas revoltas populares, como por exemplo, a conhecida “guerra da água” em Cochabamba, no ano 2000. Nesta ocasião as massas trabalhadoras e indígenas se insurgiram contra a privatização e entrega às multinacionais imperialistas, do sistema municipal de águas, elevando drasticamente os preços das contas e tornando praticamente inviável as condições de sobrevivência da população empobrecida e seu acesso a água potável, num país onde seu povo possui vínculo muito estreito e tradicional com a natureza, por ser em sua maioria, herdeiros diretos dos povos originários.

Tais revoltas populares multitudinárias culminaram na eleição em 2005, de Evo Morales, dirigente do Movimento ao Socialismo (MAS), como o primeiro presidente operário e indígena do país. Os governos de Evo Morales foram marcados por importantes concessões às massas trabalhadoras bolivianas; mas também por sofrer constantes tentativas de desestabilização golpista por parte da burguesia crioula lumpen e racista da chamada “Media Luna”, nos departamentos de Santa Cruz, Beni, Pando e Tarija, comprometidos com a perpetuação do capitalismo dependente reinante no país.

A grande debilidade dos governos de Evo e do MAS no entanto, assim como dos demais governos da chamada “onda progressista” na América Latina dos anos 2000, foi sua limitação em relação ao avanço para uma política revolucionária e socialista, que possibilitasse quebrar o poder das classes dominantes, promover a integração latino-americana contra o poderio do imperialismo estadunidense e romper com a estrutura econômica do capitalismo dependente e com o subdesenvolvimento. Como se vê, tal tarefa é comum a todos os países de nosso continente e, portanto, necessita de uma concreta política revolucionária e integracionista, sem o qual, qualquer mínima concessão aos povos trabalhadores, ou qualquer pretensão limitadamente nacionalista, não pode ser tolerado pelas burguesias crioulas de Nossa América, sempre a reboque e servil aos interesses de Washington.

Ao não avançar para uma perspectiva claramente revolucionária e ao manter em linhas gerais a estrutura do capitalismo dependente, deixando intacto o poder de classe da burguesia e suas forças de repressão, bem como boa parte de toda a superestrutura de um Estado burguês dependente, o MAS, partido de Evo, mergulhou em profunda crise e divisões internas, como a ocorrida entre Evo Morales e Luís Arce, que favoreceu à chegada da direita puro sangue ao controle direto da máquina estatal, expresso na figura do ultraliberal Rodrigo Paz na presidência da república.

Poderíamos também afirmar que a desestabilização política que têm ocorrido na Bolívia nos últimos anos, também atinge praticamente todos os países latino-americanos. A crise geral que toma conta do regime capitalista mundial e no centro mesmo do coração imperialista, se repercute de forma muito mais agravada, intensa e desumanizada, nos países de capitalismo de origem colonial, hiper tardios e dependentes, como os nossos.

Em seu declínio irreversível, o capitalismo não pode mais permitir qualquer agenda política de caráter reformista, sobretudo nos países dependentes, onde o eixo central da acumulação burguesa está assentada na superexploração selvagem sobre os trabalhadores. É neste contexto que devemos situar o avanço do guerreirismo de classe da burguesia da “Media Luna” em Bolívia, da crise do chamado “progressismo” na América Latina e da ofensiva imperialista e fascistóide contra os povos oprimidos em todo o mundo.

A nova agenda golpista do imperialismo, suas ameaças terroristas contra Cuba, Venezuela, Irã, Palestina, Líbano, Bolívia, etc; o avanço da extrema direita fascista na América Latina e no mundo, são todas expressões de uma tentativa por parte do sistema de dominação imperialista e da burguesia internacional, reconfigurar o capitalismo diante de sua crise histórica e que para tal, necessita, assim como um vampiro para se manter vivo, sugar o sangue de toda a classe proletária e das massas trabalhadoras em todo o mundo, o que significa na atual fase do regime burguês decadente, radicalizar ainda mais a superexploração, aprofundar a miséria, o descarte de uma massa “sobrante” da população, mercantilizar por completo a sociedade para abrir novos raios de acumulação e recrudescer a guerra, a mortandade e destruição de forças produtivas, para tentar dar viabilidade ao capitalismo senil.

Neste contexto, a rebelião popular revolucionária do povo boliviano, é uma lição viva da pedagogia de luta e enfrentamento de classe, contra os exploradores e o monstro imperialista. A vitória dos trabalhadores na Bolívia, certamente servirá como uma centelha, que pode incendiar toda a nossa região, assim como ocorreu no início dos anos 2000.

Longe da pretensão de propor dar lição de como conduzir sua luta aos irmãos combativos bolivianos, pensamos que para avançar rumo a vitória contra a burguesia de rapina, é necessário um claro programa revolucionário, um norte político e uma forte vanguarda, que pode ressurgir no contexto boliviano, com a crise do MAS, apesar da autoridade de Evo Morales, diante das massas. O apoio ativo e concreto da esquerda e de todos os trabalhadores latino-americanos ao povo boliviano torna-se mais do que necessário, é imprescindível mesmo, neste período marcado pela ofensiva coordenada da extrema direita burguesa e do imperialismo em nossa região.

A rebelião popular em Bolívia é parte integrante e inseparável das lutas dos povos de Venezuela e Cuba, para ficarmos nos dois exemplos mais candentes do embate anti-imperialista em Nossa América. Precisamos urgentemente articular formas e instrumentos que possibilite internacionalizar e integrar as lutas populares de nossos povos contra as burguesias e o imperialismo em nossa região, visando taticamente superarmos o isolamento e a fragmentação de nossas forças, que muito interessa ao inimigo de classe.

De qualquer forma não temos a menor dúvida de que, a vitória histórica dos trabalhadores bolivianos contra sua burguesia racista e de rapina, será também um duro golpe contra o imperialismo e um importante alento e exemplo para despertar a todos os povos oprimidos de Nossa América.

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